Bichinho da Floresta

24012019
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‘Fui picada pelo bichinho da agrofloresta’, afirma agrônoma que produz 1 tonelada de alimentos

Para Maridélia Gonzaga, conceito de produção disseminado pela Fazenda da Toca aproxima pessoas do campo

A engenheira agrônoma Maridélia Gonzaga nasceu na roça e voltou para o campo com o diploma e tese de mestrado debaixo do braço.

Durante os estudos, a filha de agricultor, que pesquisava como conciliar produção com preservação, ouvia o tempo todo de uma fazenda modelo. E se interessou tanto pelo sistema produtivo baseado na agrofloresta que chegou ao “local dos sonhos” e passou a atuar como voluntária.

Hoje ela comanda a horta da Fazenda da Toca, administrada por Pedro Paulo Diniz, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2018.

Maridélia Gonzaga em sua horta na Fazenda da Toca, Itirapina (SP)
Maridélia Gonzaga em sua horta na Fazenda da Toca, Itirapina (SP)

E, além de realizar o desejo de se reconectar com ma natureza, transformou o local em um polo de educação e de produção, onde, meio hectare, colhe uma tonelada de alimentos sem agrotóxicos por mês, em um ritmo que respeita o calendário lunar e promove o controle biológico.

A primeira vez que ouviu falar da Toca, eu estava fazendo mestrado e pesquisava como conciliar produção com preservação. A fazenda era um modelo, produzindo nesse sistema agroflorestal, e também em larga escala. Fiquei encantada e falei: “Nossa, meu sonho é trabalhar e morar na Toca”.

Meu sonho foi realizado há um ano. Antes de ser parceira (na horta), eu fui voluntária, ajudando nos cursos de agrofloresta. Como estava escrevendo minha dissertação, procurei algo prático. Ao final do curso de três dias, fui picada pelo bichinho da agrofloresta. Falei: “É isso que eu quero para minha vida”.

É uma produção que aproxima mais as pessoas do ambiente. As pessoas se afastam disso. Mesmo estudando bastante, tem muita teoria, mas falta esse contato. E a agrofloresta tem toda uma diversidade de espécie, todo esse cuidado com a terra, com a gente, com os alimentos. Tem essa conexão da pessoa com outras pessoas, das pessoas com a terra. Se você se alimenta melhor, seu corpo está melhor, sua mente também e aí vem uma sociedade melhor. É minha crença na agrofloresta.

Nessa horta,  numa área produtiva de meio hectare, a gente produz mais de 40 espécies. A gente respeita a época de cada uma e tenta seguir o calendário lunar. A gente produz desde brócolis, alho, alho-poró, morango, chuchu, tudo o que você imaginar de hortaliças e algumas frutas.

É uma parceria com a Fazenda da Toca é super vantajosa para ambas as partes. Paguei pelo arrendamento da terra, mas considero que a horta é de todo mundo. O programa de aprendiz, as visitas, acontecem aqui. Eu também apendo muito com eles, a produzir, a conservar o solo, a água e a fazenda. É uma troca grande.

A gente consegue produzir por mês, nesse sistema agroflorestal, cerca de uma tonelada por mês. E esse alimento é livre de adubos químicos. A gente tenta ajudar os princípios da floresta na agricultura, planta em diversidade. Uma espécie contribui com a outra. Em cima e embaixo do solo. Então esse alimento não vem rido de adubo. Vem com a energia vital da terra.

Aqui a produtividade é maior que a convencional, onde se planta uma espécie por canteiro. Na horta agroflorestal, no espaçamento normal plantamos outras espécies. Por exemplo, entre os brócolis a gente planta um alface, que tem crescimento mais rápido, e no centro outras mais rápidas ainda, como rúcula, agrião, coentro. Elas se ajudam. E o pessoal fala “Ah, você não faz controle de praga?” Aqui a gente não faz.

Na agrofloresta, não tem uma receita de bolo, é um aprendizado todos os dias. Então uma coisa que deu certo no inverno, no verão você já tem que mudar, então é observação constante. E isso que é apaixonante, porque vocês está observando o tempo todo, aprendendo com a natureza e aplicando as técnicas que você aprendeu.

Todo dia eu colho para o restante da fazenda e na sexta feira é o dia que tem mais colheita, que é para a feira (em São Carlos (SP)) e uma pessoa que compra para vender em São Paulo. Aqui na horta é uma ganha ganha absurdo, de muitas coisas além do dinheiro. É uma agregação de valor muito maior. Pensando em todo o conhecimento que essa horta gera para a gente, para os aprendizes, para as pessoas que visitam, esse é um ganho imensurável, o maior que a gente tem. E de dinheiro a horta se mantém.

Os alimentos são melhores, duram mais e não tem agrotóxico, defensivo, nada. A gente está o tempo todo com passarinhos, joaninhas, vários insetos. Dessa contaminação a gente está livre. Por isso essa horta é modelo para agricultura familiar, para assentamento, colônias, enfim, onde existam pessoas que queiram cuidar da terra. Esse é o futuro.

Eu sou da terra, nasci no sertão da Bahia. A gente já plantava feijão, milho, e lá não chovia. Sai, estudei na Unesp, onde uma turma de cem alunos tinham mais pessoas interessadas no agronegócio, eu era chamada de bicho grilo. Quando terminei eu pensei: “Nossa, agora eu sei a técnica, já morei na roça, então agora é hora de voltar e tentar fazer isso”.

Meu pai era um agricultor que fazia o que ele aprendeu com os pais, mas sabia dos antigos, que já usavam essas coisas plantadas juntas, que hoje a gente chama de consórcio. E os índios plantavam e até hoje plantam assim.

As pessoas não têm informação do que o agrotóxico causa. Tem várias pesquisas que falam desses radicais livres. As pessoas têm o poder de mudar. Na produção, tem o uso consciente de agrotóxicos e tem o uso deliberado, sem prestar atenção. E as pessoas acham que é necessário. Em alguns locais, se não tiver agrotóxico, não produz alimento, porque sempre quer tomate e brócolis o ano inteiro. E para isso tem que usar agrotóxico e adubo para produzir.

Se não fosse o Pedro Paulo a horta não existia, foi ele que teve essa iniciativa. Ele vem aqui, ele é uma pessoa iluminada, sonhador mesmo. É um exemplo a se seguir. E ele vem colocando a agrofloresta em prática é a pessoa para disseminar a agrofloresta. Nada melhor do que vocês vivenciar e depois passar para outras pessoas.

Fonte: FolhaUol

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